Câncer de Mama

14 ago

Por Gustavo Gusso

A edição do Jornal Nacional de 05/07/2011 (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/07/mulheres-enfrentam-crucis-para-conseguir-tratamento-de-cancer-de-mama.html) lança duvida na recomendação de se fazer rastreamento em mulheres de 50 a 69 anos ou antes.. Aos 2 min e 30 segundos o mastologista Carlos Alberto Ruiz diz que a recomendação é relacionada a limitação orçamentária.

Esta informação não corresponde a verdade pois os estudos que suportam a recomendação dos exames regulares a partir dos 50 anos avaliam apenas risco e benefício para a população rastreada e não custos. A informação incorreta é que hoje a sugestão é prorrogar até os 74 anos e não interromper aos 69, de acordo com a  agência americana US Preventive Services Task Force que não é financiada pela industria farmacêutica e é coordenada por epidemiologistas e não por subespecialistas (http://www.uspreventiveservicestaskforce.org/uspstf09/breastcancer/brcanrs.htm).

Os melhores profissionais que estudam recomendações de rastreamento populacional são epidemiologistas, em especial os que não se dedicam a apenas uma área do corpo humano como mastologistas pois são várias as possibilidades de exames de rotina e a decisão deve ser baseada em dados epidemiológicos. Ou seja, se o rastreamento leva a redução da mortalidade geral e se os benefícios superam o risco. Não adianta rastrear muito uma doença por um especialista e a pessoa morrer por outra com a qual não se preocupava e não é saudável frequentar inúmeros especialistas para rastrear .

No caso de mamografia o risco de falso positivo é somado a cada nova mamografia e após 10 mamografias a chance de uma mulher ter tido um falso positivo (exame alterado quando na verdade a mama estava normal) é de aproximadamente 50%  (N Engl J Med, vol 338, num 16, pags 1089 a 1096) . Cada falso positivo na mamografia pode desencadear uma sucessão de falso positivos e a possibilidade de amputação desnecessária da mama não é desprezível.  Desta forma, o dado fornecido de um serviço específico que 15% das mulheres que têm câncer de mama diagnosticado tem menos de 45 anos nada mais é que um dado de um serviço e que não quer dizer nada em termos de recomendação para rastreamento populacional (aquele em que todas as pessoas, independente da história pessoal, são convocadas).  Como o câncer de mama antes dos 50 anos é bem menos prevalente, a chance de falso positivo, e portanto de dano,  é maior

Assim sendo, os riscos precisam ser individualizados e quando a pessoa tem que fazer mamografia antes dos 50 anos é porque tem uma história familiar ou um achado no exame clinico (que deve ser feito anualmente desde os 40 anos). Ou seja, esta mamografia antes dos 50 anos a rigor não é um rastreamento populacional como o que estava sendo discutido na reportagem, mas um exame solicitado ao indivíduo que tem uma história só dele.

Como as possibilidades de recomendações e de exames de rastreamento são muitas, o profissional mais adequado para “check up” é um generalista atualizado que consegue através da história traçar a melhor estratégia individual levando em consideração todos os aspectos da pessoa e não apenas um exame de uma parte do corpo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: