Saúde da criança

14 ago

Por Gustavo Gusso

Na edição do Fantástico do dia 24/04/2011 (http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1660059-15605,00.html) o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria diz aos 12 minutos que 30% dos atendimentos de rotina das crianças e 43% das urgências não são feitos por pediatras. Este dado é passado como alarmante mas isso não corresponde a realidade.

Na Europa ocidental, Canadá, Austrália e Nova Zelândia a grande maioria dos atendimentos de rotina das crianças é feito por médicos de família (especialidade que no Brasil é reconhecida pela Associação Médica Brasileira com o nome de medicina de família e comunidade) que pode ser brevemente como um clinico geral que se especializou, ou seja fez residência ou prova de titulo e demonstrou capacidade para atender os problemas de saúde mais frequentes da população independente do sexo, idade ou órgão afetado.

Ou seja, o que deve ser avaliado é se o generalista que esta atendendo as crianças é capacitado e não se é pediatra. Na residência de medicina de família e comunidade o treino ambulatorial em puericultura  é maior que o treino da residência em pediatria que dedica grande parte da sua carga horária ao hospital e a problemas graves e raros.

A literatura corrobora esta informação e não há diferença no desfecho da puericultura realizada por pediatras, médicos de família e enfermeiros.  Os pediatras em geral marcam mais retornos o que, no caso de crianças saudáveis, também não se justifica cientificamente (J Pediatr (Rio J) 2003;79(Supl.1):S13-S22) exceto por uma questão comercial para movimentar o consultório particular. O mesmo vale para retornos frequentes ao ginecologista pois papanicolau pode ser feito a cada 3 anos se houver dois exames normais.  O problema é que a cada retorno aumenta a chance de uma intervenção desnecessária e o cultivo da cultura da medicalização de processos naturais desde a infância.

Enfim, não há nada mais natural no mundo desenvolvido que o medico de família fazer puericultura e pré-natal de baixo risco. É algo recomendado pela ciência e não um erro do sistema de saúde brasileiro.  Nos países desenvolvidos, exceto os EUA que tem um sistema de saúde desorganizado, pouco custo-efetivo e que tem servido de exemplo negativo, os próprios pediatras levam seus filhos no médico de família e ficam responsáveis apenas por problemas mais raros e graves como UTI neonatal, por exemplo.

Ou seja, um sistema de saúde custo-efetivo não pode pagar a um profissional que estudou 6 anos na graduação mais 2 a 5 na pós graduação para fazer apenas puericultura, pré-natal de baixo risco ou papanicolau, seja no público ou privado. Mesmo se o privado optar por este caminho como ocorre no Brasil, a conta da baixa custo efetividade só pode ser paga com renuncia fiscal (desconto no imposto de renda, etc..), ou seja, deixando de arrecadar para o sistema como um todo e sacrificando a parte pública. E por isso a vaga das residências devem ser controladas como faz grande parte dos países desenvolvidos com sistemas de saúde públicos e universais. Nestes locais 40% de todos os médicos que se formam devem seguir a medicina de família sendo que a pediatria detém aproximadamente 10% das vagas da medicina de família ou 4% do total (ver figura abaixo ou em http://www.carms.ca/index.html). Muitas vezes brasileiros mal acostumados com uma saúde comercial e financiada com a miséria e dificuldade de acesso de parte da população reclama dos sistemas de saúde ingleses, holandeses, dinamarqueses, etc.. justamente porque nestes lugares não se pode fazer da saúde um shopping center e se oferece o que a ciência atesta como custo efetivo.

Portanto, o principal problema não é a falta de pediatra mas a insistência em focar na puericultura. Em nenhum pais do mundo 100% das crianças são atendidas apenas por pediatras e mesmo em países com sistemas de saúde confusos como os EUA o medico de família faz puericultura em áreas rurais. Mesmo que a cultura de ir ao pediatra continue na parte privada e pouco efetiva do sistema de saúde brasileiro, a imprensa e as pessoas que fazem a mídia, em geral de classe média e alta e que frequentam pediatras privados, devem basear as informações em dados científicos ou relatando como ocorre em lugares com sistemas de saúde mais avançados, ou seja universais e equânimes e que não deixam o aspecto comercial dominar. O link da internet não mostra mas no final da reportagem a apresentadora Patricia Poeta diz algo como “não há nada pior que seu filhe estar com febre a noite e não ter o celular do pediatra”. Mesmo a parte da população que vai ao pediatra muitas vezes faz através de planos de saúde  e não tem acesso ao celular do mesmo. Ou seja, é uma parcela estimada de 5% da população que tem este luxo. Em países desenvolvidos também há rodizio de sobreaviso e plantão entre os médicos de família e frequentemente não é o “medico da família” que faz o atendimento fora do horário. Ou seja,  o comentário da apresentadora é direcionado a uma parcela muito restrita da população e ajuda a criar uma falsa sensação de caos nesta área.

Vagas na Residência do Canadá em 2011

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