Mais uma vez a próstata

9 dez

No sábado dia 7/12/13 o Jornal da Band, que é um bom jornal mas tem uma editoria de saúde sofrível porque trata de temas complexos de forma simplificada, fez uma reportagem bastante enviesada sobre rastreamento de câncer de próstata (http://noticias.band.uol.com.br/jornaldaband/videos/2013/12/07/14783243-idade-minima-para-exame-de-prostata-aumenta.html). A reportagem critica a tímida porém correta decisão da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) de aumentar em cinco anos a idade mínima para iniciar o rastreamento. Embora a entidade com maior reputação sem conflitos de interesse noticiados que é o US Preventive Services Task Force classifique o rastreamento como nocivo (http://www.uspreventiveservicestaskforce.org/prostatecancerscreening.htm) por causa da chance de falso positivo e do sobrediagnóstico (diagnóstico de tumores que não causariam prejuízo), a SBU dá um pequeno e sensato passo que jornais de excelência como o The New York Times comemorariam. O próprio inventor do PSA disse taxativamente: “Eu nunca sonhei que a minha descoberta de quatro décadas atrás conduziria a um desastre de saúde pública com fins lucrativos. A comunidade médica tem de enfrentar a realidade e parar o uso inadequado de PSA para rastreio. Fazer isso seria economizar bilhões de dólares e salvar milhões de homens parando tratamentos desnecessários e debilitantes” (http://www.nytimes.com/2010/03/10/opinion/10Ablin.html?_r=0)

Mas a reportagem simplesmente não toca no outro lado da moeda. Ao contrário, faz o terrorismo ao entrevistar um homem que teve o câncer detectado por rastreamento aos 38 anos. Qualquer estudante de medicina do segundo ano já sabe com noções elementares de epidemiologia que não se toma decisões com base em histórias pessoais. Os estudos devem envolver grupos de pessoas. E de preferência as decisões devem ser baseadas em ensaios clínicos randomizados. Os melhores estudos têm demonstrado que o rastreamento de câncer de próstata tem mais riscos que benefícios.

Na reportagem o Professor Miguel Srougi diz primeiro que aquele homem de 38 anos se não tivesse feito o rastreamento estaria morto. Depois diz que as pessoas merecem fazer o exame se tiverem “medo” de câncer de próstata. Como as pessoas não nascem com “medos” e esta é uma construção cultural, resta a pergunta: “quem é que está colocando o medo de câncer de próstata na cabeça dos homens”?

Nunca é demais lembrar que não é função da medicina fazer um homem morrer aos 38 de câncer de próstata após ter feito check up cardiaco ou vice-versa. Seria estranho um Professor de Urologia ir ao enterro de um homem de 38 anos que morreu de infarto e dizer aos familiares: “pelo menos a próstata estava intacta”. Ou seja, temos que focar nos riscos individuais e para que isso ocorra o generalista é o responsável por rastreamentos individualizados nos países com sistemas de saúde saudáveis. Ninguém vai conseguir fazer “check up” indo a 50 especialistas (a Associação Médica Brasileira reconhece mais de 50 especialidades). Não faz parte do mundo real, concreto e racional.

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