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20 exames que seu médico não deveria pedir

7 set

No Brasil chegamos a um ponto que em algumas matérias sobre saúde deveríamos inverter o título. Nesta reportagem, http://revistavivasaude.uol.com.br/saude-nutricao/79/artigo154923-1.asp A médica entrevistada foi precisa: “A necessidade de exames complementares deve ser avaliada pelo médico, de acordo com o risco que aquele paciente apresenta, seja pela apresentação de um sintoma, pela história familiar ou seus hábitos e costumes”.

Ou seja, não há uma relação que serve para todas as pessoas e exames em excesso representam risco a saúde. Mesmo com este depoimento a reportagem seguiu adiante de forma iatrogênica e diz que “entrevistou 25 especialistas”. O melhor profissional para definir a estratégia de exames é o generalista como o médico de família pois consegue perceber quais são os maiores riscos e não tem o viés de um órgão, sistema orgânico, sexo ou faixa etária.

Os únicos exames que devem ser pedidos a todas pessoas sem avaliação prévia de risco de acordo com  o US Preventive Services Task Force (http://www.uspreventiveservicestaskforce.org/uspstopics.htm) são:

1. teste do pezinho em crianças (que inclui hipotireoidismo congênito)

2. papanicolau em mulheres dos 21 aos 65 anos de 3 em 3 anos após dois normais

3. mamografia dos 50 aos 74 anos

4. sangue oculto nas fezes anualmente, retossigmoidoscopia a cada 5 anos ou colonoscopia a cada 10 anos dos 50 aos 75 anos

5. perfil lipídico em mulheres com mais de 45 anos e em homens com mais de 35 anos

Um dia perguntei a Professoras do Departamento de Medicina de Família e Comunidade da Universidade de Toronto se era comum no Canadá urologistas irem na televisão advogarem por exames controversos como PSA e elas disseram: “é melhor para eles não fazerem isso”. Ou seja, reportagens deste tipo são reflexo da sociedade que vivemos. No caso do Brasil há uma ignorância disseminada.

Prevenção, exames de rotina, check up

15 ago

Por Gustavo Gusso

Grande parte das informações incorretas veiculadas na mídia diz respeito ao tema exames de rotina ou o famoso “check up”. Esta ação pode ser definida como  “a aplicação de testes diagnósticos ou procedimentos para pessoas assintomáticas com o propósito de dividir elas em dois grupos: as pessoas que tem uma condição que irão se beneficiar de uma intervenção rápida e os que não irão se beneficiar desta intervenção” (Am Fam Physician 2001;63:513-22)

Muitos médicos e pesquisadores sérios do mundo todo acreditam que estamos vivendo neste campo uma nova indústria, que vem na esteira da indústria farmacêutica. Informações relevantes quanto ao risco dos exames e quanto ao benefício dos mesmos muitas vezes é omitido. Um bom artigo de revisão sobre o assunto chama-se "Screening for Cancer: Evaluating the Evidence" (Am Fam Physician 2001;63:513-22) de onde foi retirada a definição de rastreamento (ou "screening" ou "check up") citada acima. Para quem não é da área é importante que ao avaliar ou noticiar um exame de rastreamento alguns pontos sejam levados em consideração como:
•Características da doença:
–Significante impacto na saúde pública
–Período assintomático
–Desfecho modificável pelo tratamento disponível
•Características do teste:
–Sensível para detectar doença durante período assintomático
–Específico para minimizar falso positivo
–Aceitável pelos pacientes
•Características da população:
–Prevalência de doença suficientemente alta para justificar a medida (Valor Preditivo Positivo)
–Sistema de Saúde acessível
–Pacientes aceitando e concordando com possíveis tratamentos

(Mulley AG. Health maintenance and the role of screening. In: Goroll AH, May LA, Mulley AG. Primary care medicine. 3d ed. Philadelphia: Lippincott, 1995:13-6.)

Segue anexo uma tabela baseada no trabalho do Colégio Australiano de Médicos de Família e Comunidade (http://www.racgp.org.au/guidelines/redbook) e no U.S. Preventive Services Task Force (http://www.uspreventiveservicestaskforce.org/uspstopics.htm). Sumariza as atividades preventivas que os adultos devem realizar baseadas em estudos consistentes.

O livro “Estratégias da Medicina Preventiva”, traduzido pelo médico de família e comunidade Armando Norman, é um dos principais estudos já publicados sobre o tema o que faz de Geoffrey Rose uma figura lendária na medicina.  Duas outras recomendações de livros são: “Should I be tested for cancer? Maybe not and here´s why?” e “Overdiagnosed: Making people sick in the pursuit of health”

É importante ressaltar que a maior parte das medidas tem impacto populacional, ou seja, não é possível atribuir os mesmos resultados ao indivíduo (fato bastante discutido no livro do Rose).  Desta forma, nem sempre este tipo de prevenção é inócua e tanto os riscos quanto os benefícios devem ser avaliados. Pecar por excesso definitivamente não se aplica à boa medicina que está praticamente inviabilizada no sistema de saúde privado brasileiro em que o paciente é se comporta involuntariamente como consumidor.  Nunca a máxima “primum non nocere” foi tão verdadeira.

Nada substitui hábitos saudáveis como atividade física regular e alimentação balanceada, sem esquecer interrupção de tabagismo e consumo moderado de álcool quando houver abuso. O que mais leva a morte prematura é baixa renda e acesso precário a educação e emprego. O potencial dos exames e medicamentos é extremamente restrito quando o tema é prevenção de doenças e frequentemente o que tem sido vendido na mídia por especialistas não tem fundamento científico.  Lamentavelmente todos irão morrer de alguma causa e duas das principais atividades dos médicos, também pouco divulgadas, além do diagnóstico precoce através de história e exame físico adequados e tratamento efetivo de problemas estabelecidos,  são uso racional da tecnologia disponível e minimizar o sofrimento das pessoas e das famílias no momento da morte.